Mundo Estranho e o processo de segmentação 5

Mundo Estranho e o processo de segmentação

A Mundo Estranho 

Com o slogan “A revista que explica o mundo de um jeito divertido”, a Mundo Estranho pode ser considerada exemplo de um produto editorial que foi pensado e desenvolvido a partir da própria segmentação.

Lançada em agosto de 2001 pela Editora Abril , é originária de uma coluna produzida especialmente para a revista Superinteressante, cujo objetivo era responder as perguntas enviadas pelos leitores.

Esta edição especial da Superinteressante, ao trazer respostas para as principais dúvidas dos leitores da Superintrigante (atual Super Respostas) recebe o nome de “Mundo Estranho” e em consequência à boa aceitação do público, a Editora Abril resolve lançar em junho de 2002 novas edições da revista.

Segundo Silva (2002), na edição de estreia, as 90 perguntas que já haviam sido publicadas anteriormente ganharam nova apuração e infográficos, esgotando-se rapidamente nas bancas e tendo vendagem recorde de 91.200 exemplares.

Segmentações da Mundo Estranho

Um modelo de negócio que há muito tempo é utilizado pela mídia impressa é o processo de segmentação e tem como estratégia estudar o comportamento do público-alvo, a fim de forma efetiva desenvolver produtos que atendam aos anseios dos consumidores. De acordo com Mira, a segmentação é:

Uma estratégia através da qual procura-se atingir novos nichos de mercado. Porém, revela com clareza que as variáveis que recortam os nichos são sociais como, por exemplo, o gênero, a geração ou a questão étnica. Para tornarem-se segmentos de mercado, evidentemente, eles devem ter potencial de consumo. (2001, p. 214)

Deste modo, a Editora Abril realiza estudos de marketing destinados a conhecer melhor o perfil do público leitor da Mundo Estranho. Entre os processos de segmentação, podemos destacar os que se enquadram e, suas respectivas informações.

Segmentação geográfica

A Mundo Estranho está presente nas cinco regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), mas os mercados de maior representatividade em audiência e faturamento são: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Segmentação demográfica

Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC) publicado em dezembro de 2017, a tiragem mensal da Mundo Estranho é de 80.000 exemplares. Hoje, a revista pode ser considerada uma das publicações que mais cresce em número de assinantes e em ambiente digital.

Destinado a faixa etária de 15 a 29 anos, sabe-se que a maior parte dos leitores (35%) têm idade entre 20 e 29 anos. Cerca de 43% pertencem a Classe B e são do sexo masculino (62%), enquanto que o público feminino representa 38%.

Segmentações psicográfica e comportamental

De acordo com dados disponibilizados ao mercado publicitário, os leitores da revista são considerados jovens ansiosos, que executam várias tarefas ao mesmo tempo (multitarefas), vivem conectados e estão em busca de informações sobre assuntos diversos, mas com ênfase maior em temas relacionados ao terror, humor e nostalgia.

Já em outro estudo realizado pela Marplan (2015), os leitores da revista são identificados por consumir grandes marcas desde que engajam em campanhas sustentáveis e pela construção de um mundo melhor, apreciam cultura pop como fonte de conhecimento e as consideram tais ensinamentos tão sólidos quanto a formação proporcionada por uma escola ou faculdade, e confirmam que aprenderam inglês com games, histórias com séries de televisão e ciências sociais com youtubers.

O estudo revela ainda que 70% do público têm o hábito de ouvir músicas diariamente, 45% possuem automóvel e 40% deles têm o hábito de jogar videogame diariamente.

Linguagens editorial e visual

Perspicaz e em sintonia com os assuntos da atualidade, a Mundo Estranho é conhecida pelo público por abordar temas em sua grande maioria relacionados ao conhecimento geral e a cultura pop.

Com textos de fácil compreensão, informações precisas e alto impacto visual, destaca-se no mercado nacional por ser pioneira na utilização de infográficos, proporcionando aos leitores uma maior facilidade na compreensão e assimilação de conteúdos publicados.

De acordo com Patrícia Ceolin Nascimento, autora do livro “Jornalismo em revistas no Brasil”, as principais características de uma revista são:

[…] uma publicação periódica de formato e temática variados que se difere do jornal pelo tratamento visual (melhor qualidade de papel e de impressão, além de maior liberdade de diagramação e utilização de cores) e pelo tratamento textual (sem o imediatismo imposto aos jornais diários, as revistas lidariam com os fatos já publicados pelos jornais diários ou já veiculados pela televisão de maneira mais analítica, fornecendo um maior número de informações sobre determinado assunto). (2002, p. 18)

Publicada mensalmente desde 2002, a Mundo Estranho sempre apresentou em suas edições ampla variedade de temas. Ao analisar a capa de lançamento (figura 01 – abaixo), podemos observar que este compilado de informações destaca-se pela variedade de cores e traz como manchete o tema “MUNDO ESTRANHO: mistérios históricos, revoluções tecnológicas, assombros científicos, maravilhas da natureza. As perguntas mais curiosas – e as respostas mais surpreendentes – em 14 anos de SUPER”.

A fim de chamar a atenção de outros leitores que não se interessam para a matéria de capa, outras quinze chamadas laterais são apresentados – em menor proporção e compostos por imagens diversas – e, em forma de questionamentos: Como é calculada a idade da Terra?, Por que as flores têm perfume?, Como se forma uma pedra preciosa?, Quem foram os ninjas?, Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?, Como o camaleão troca de cor?, etc.

Figuras 1 e 2 – Revistas Mundo Estranho: edições 01 e 2018.

Mundo Estanho e o processo de segmentação

Fonte: Mundo Estranho 2001 e 2018.

A análise

Na edição número 206 (figura 02), a manchete de capa traz como título: “Me ENGANA que eu compro”: produtos disfarçados, embalagens mascaradas e rótulos mentirosos. Ao abordar este tema, a revista traz à tona, um assunto muito debatido na atualidade que são os truques que as empresas utilizam com o objetivo de manipular os consumidores na hora das compras.

Temas secundários na parte inferior da capa são apresentadas em menor proporção, e seguindo a mesma lógica utilizada na capa da edição número 01, em que traz os outros destaques em forma de perguntas, dialogando diretamente com o consumidor. Nas chamadas da parte inferior seguem os seguintes questionamentos: Para que serve o campo magnético da Terra?, Qual foi o primeiro game criado no Brasil? e Como é o exame de corpo de delito?

Ao analisar o aspecto visual das capas, conseguimos observar (figura 01), a presença de poluição visual pelo excesso de imagens nas chamadas laterais da página e tonalidades escuras, características não empregadas na capa da edição 206. Percebemos ainda que, em 2001, o layout da revista assemelhava-se mais aos aspectos visuais da revista Superinteressante.

Figura 3 – Revista Superinteressante, edição 166 – Julho de 2001

dogma21.com

Fonte: Revista Superinteressante, 2001.

Já em relação a capa de 2018 (figura 02), cujo tema trata-se da manipulação das empresas, podemos observar um aspecto mais clean apesar do emprego de cores quentes (amarela e vermelha). O humor e a ironia ao caracterizar o molho de tomate, o suco de uva integral e a barra de chocolate orgânico estão presentes e pode ser considerada uma característica adotada pela revista como forma de marcar a própria identidade.

No título, a ênfase é dada a palavra engana que se encontra em caixa alta. Segundo Marques (2003), as revistas se aproximam ainda mais da literatura que o jornalismo diário e admite usos estéticos da palavra e recursos gráficos.

Neste sentido, a revista Mundo Estranho utiliza ampla variedade de recursos visuais e de alto impacto, a fim de, que possa comunicar de forma objetiva e surpreender o público consumidor. Pode-se observar que os infográficos são elementos empregados pela revista desde a primeira edição e têm boa aceitação do mercado editorial. De acordo com a Associação Brasileira de Imprensa, a infografia é:

uma forma de representar informações técnicas como números, mecanismos e/ou estatísticas, que devem ser sobretudo atrativos e transmitidos ao leitor em pouco tempo e espaço. Normalmente utilizado em cadernos de Saúde ou Ciência e Tecnologia, em que dados técnicos estão mais presentes, o infográfico vem atender a uma nova geração de leitores, que é predominantemente visual e quer entender tudo de forma prática e rápida. (CAIXETA, 2005, p. 1)

Inicialmente utilizado pelas editorias de Saúde, Ciência e Tecnologia, a infografia tornou-se um instrumento poderoso no processo de comunicação. A possibilidade de transformar assuntos complexos em algo de maior compreensão é uma característica empregada pela Mundo Estranho desde a primeira edição.

Na figura abaixo, da editoria Mundo Animal, na seção “Quem te viu, quem te vê”, podemos observar a facilidade que os ilustradores tiveram em transformar em infográfico as cinco fases do processo de transformação da lagarta em borboleta. Em um processo normal de escrita seria impossível levar ao leitor o entendimento para um assunto complexo sem o auxílio de recursos gráficos.

Figura 4 – Infográfico da Revista Mundo Estranho, edição número 01, de novembro de 2001.

Mundo Estanho e o processo de segmentação
Revista Mundo Estanho e o processo de segmentação de público

Fonte: Mundo Estranho, 2001.

Em 2018, na reportagem “Como é feito um exame de corpo de delito?”, da editoria “Perguntas e Respostas”, podemos observar que em duas páginas da revista, a repórter Júlia Moioli com o apoio técnico do designer Bruno Ferreira explicam em sete passos o processo de realização do exame de corpo de delito.

De forma didática, explicam detalhadamente a formação do profissional responsável pela realização do exame, os tipos de lesões que ocorrem com maior frequência nos pacientes e quais exames são realizados em pacientes vivos e mortos, além de explicar o processo de emissão do Laudo de corpo de delito.

Figura 5 – Infográfico da Revista Mundo Estranho, edição fevereiro de 2018.

dogma21.com

Fonte: Mundo Estranho, 2018.

No infográfico acima, podemos observar o cuidado que o designer obteve ao detalhar com precisão o exame de corpo de delito ao mostrar nas ilustrações os aspectos causados por marcas de mordida, calçados ou cinto, etc.

Em relação as seções, pode-se observar que na edição número 01, existiam oito temas específicos que abordavam assuntos relacionados ao Ambiente, Astronomia, Ciência, Curiosidades, História, Mundo Animal, Saúde e Tecnologia.

Já na edição número 206 são apresentadas sete seções (Teoria da Conspiração, Estranho Mundo, Hiper Fluxo, Retrato Falado, Flashback, #Euquefiz e Infopop), dois temas especiais (Gato por lebre e Um novo dia para morrer), Xis Tudo (assuntos sobre cultura pop, séries, tecnologia e games) e o tradicional Perguntas e Respostas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisar a Mundo Estranho, concluímos que aconteceram mudanças significativas em relação ao conteúdo, aspecto visual e linguagem da revista quando comparados a primeira e última edições da revista.

O processo de segmentação foi fundamental para estudar o comportamento do público-alvo (15 a 29 anos) da revista e para o desenvolvimento de produtos que atendessem aos anseios dos leitores.

Identificamos que a Mundo Estranho é vendida para as cinco regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), mas os mercados de maior representatividade em audiência e faturamento são os de Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo (segmentação geográfica).

Através do processo de segmentação demográfica, identificamos que o público-alvo da revista está na faixa etária de 15 a 29 anos, 35% dos leitores têm idade entre 20 e 29 anos, cerca de 43% pertencem a Classe B e são do sexo masculino (62%), enquanto que o público feminino representa 38%.

Em relação aos processos de segmentação psicográfica e comportamental, observamos que os leitores são considerados jovens ansiosos, executam diversas tarefas ao mesmo tempo, estão conectados à internet e buscam assuntos relacionados ao terror, humor e nostalgia.

São consumidores de grandes marcas, buscam por um mundo melhor, apreciam cultura pop como fonte de conhecimento. Estes jovens leitores ainda afirmam que aprenderam inglês com games, histórias com séries de televisão e ciências sociais com youtubers, o que seria um método de ensino fora do tradicional.

Podemos afirmar ainda que 70% têm o hábito de ouvir músicas diariamente, 45% são proprietários de automóveis e 40% têm o hábito de jogar videogame diariamente.

Ao analisar as linguagens editorial e visual, concluímos que a revista possui textos de fácil compreensão, informações precisas e imagens com alto impacto visual, além de ser pioneira na utilização de infográficos, proporcionando aos leitores uma maior facilidade na compreensão e assimilação de conteúdos publicados.

Ao comparar as duas revistas, percebemos que a primeira edição da revista possui características mais próprias da revista Superinteressante do que a própria Mundo Estranho.

A poluição visual é identificada na capa da revista de lançamento (número 01) devido ao excesso de imagens nas chamadas laterais e tonalidades escuras. Características não empregadas na capa da edição 206.

O infográfico sempre esteve presente em ambas edições. Em relação as seções, encontramos oito temas específicos na edição número 01 e estavam relacionados ao Ambiente, Astronomia, Ciência, Curiosidades, História, Mundo Animal, Saúde e Tecnologia.

Já na de número 206 são apresentados ao todo sete seções (Teoria da Conspiração, Estranho Mundo, Hiper Fluxo, Retrato Falado, Flashback, #Euquefiz e Infopop), dois temas especiais (Gato por lebre e Um novo dia para morrer), Xis Tudo (assuntos sobre cultura pop, séries, tecnologia e games) e o tradicional Perguntas e Respostas.

Deste modo, podemos afirmar que a revista de número 01 pode ser considerada apenas um simulacro da Superinteressante, revista que de origem e não possuía nenhuma característica da já consolidada Mundo Estranho.

Gostou desta reportagem? Que tal saber um pouco mais sobre a feira de San Telmo, na Argentina?

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